Projeto Via | Reportagem hipermídia produzida como Trabalho de Conclusão de Curso | Comunicação Social: Jornalismo pela UNESP | 2019

Maguy

Makaya

     Um mês foi o tempo que a congolesa Maguy Makaya passou dentro de um navio até chegar ao Brasil. Grávida de 7 meses e com uma filha de 4 anos, ela desembarcou no Rio de Janeiro. Hoje, Maguy (38) e as crianças, Bruna (8) e Christine (12), moram na zona leste de São Paulo.

 

Com um marido militar, a família foi enviada para uma região de guerra na República Democrática do Congo. Por segurança, o casal teve que fugir para lugares diferentes e as filhas cresceram com a figura do pai ausente.

 

“A intenção não era vir pro Brasil, mas onde você consegue pelo menos salvar a sua família, é melhor”. A congolesa queria ir para a Europa, por conta das melhores condições de vida e estrutura para a recepção de refugiados. “Eles te acolhem, principalmente quem tem filho, e te dão lugar para ficar lá um tempo até conseguir emprego e conseguir se adaptar ao país”, explica Maguy.

 

No Rio de Janeiro, contou com a ajuda de um amigo para fazer a solicitação de refúgio, que foi negada pelo Conare. Com a possibilidade de tentar novamente obter o status de refugiada, entrou com um recurso. Antes da decisão final, deu à luz a Bruna, sua filha mais nova. Pela legislação brasileira, a criança nascida no país tem direito ao convívio familiar, o que já foi o suficiente para regularizar a situação de Maguy no país.

 

Ao narrar sua trajetória de sobrevivência, Maguy conta que não precisou enfrentar a dificuldade da língua portuguesa. Filha de pais angolanos, sempre falou português dentro de casa. Para quem vê a África com o filtro estereotipado da miséria, Maguy tem algo a dizer: “muita gente pensa que quando a pessoa é refugiada só fugiu por causa de fome, mas não. Meus pais tiveram a possibilidade de cuidar de nós e de pagar a escola até o ensino médio. Minha dificuldade não foi por causa da fome, porque ninguém quer deixar os pais para se refugiar em outro lugar.”

(Foto: Sofia Hermoso)

As histórias dos refugiados, por mais diversas que sejam, acabam esbarrando em um problema comum: a busca por emprego. No Congo, Maguy trabalhava como vendedora ambulante de bebidas. No Brasil, ela está desempregada. A crise que afeta milhões de brasileiros tem um agravante no caso dos refugiados e solicitantes de refúgio, a burocracia. No único emprego que teve no país, a congolesa trabalhou sem registro por ter perdido o protocolo de refúgio e não ter um documento oficial. Grata pela experiência, acredita que mais pessoas deveriam agir da mesma forma que seu ex-chefe. “Ele me deu oportunidade e mais pessoas deveriam compreender isso. A pessoa talvez não saiba aquilo, mas é só ensinar. Se ela é capaz de aprender rápido, consegue. Eu entrei naquela cozinha e aprendi. Como é que você vai saber que você é capaz se não experimentou?”, questiona.

 

Apesar de ter desenvolvido experiência na área, ainda é difícil encontrar emprego, já que a experiência que teve não consta na carteira de trabalho. Agora, ela está aperfeiçoando seus conhecimentos na cozinha, fazendo bolos e pães, e pretende seguir na área até encontrar um novo emprego. O marido, que vive na Angola, envia dinheiro para ajudar com o aluguel, mas Maguy não vê a hora de voltar à ativa e conseguir sustentar a casa.

 

Com as filhas, a refugiada tenta manter traços de como foi criada. A cultura do respeito e da hierarquia familiar é muito forte no Congo. Desde pequena, Maguy foi ensinada a arrumar a casa, fazer café e lavar a louça. Para ela, é importante passar esses ensinamentos como herança para as meninas, pois sempre culpam a mãe pelo caminho que os filhos seguem. O papel de mãe congolesa é feito, mesmo em um país com uma cultura diferente. Ainda assim, nenhum choque cultural é tão marcante quanto a guerra. Disso, as filhas escaparam.

 

É de 1997 a primeira lembrança que Maguy têm da guerra. Filha de pais separados, um dia foi visitar o pai. Na volta para a casa da mãe, o outro lado tinha sido atacado. Sem poder ir nem voltar, teve que ficar uma semana no meio do caminho, até o abrirem novamente. “Quando o caminho abriu, tinham mortos e crianças foram levadas para aprender a matar. [...] Eu cheguei na minha mãe e no dia seguinte nem repousei. Começou de novo, tivemos que fugir de novo. Quando voltamos tudo foi levado, saqueado.”

 

Nos últimos anos, a situação no país tornou-se novamente caótica, ainda por consequência da guerra de 1997. Dessa vez, países que estão interessados nas riquezas encontradas em terras congolesas apoiam os rebeldes com a intenção de obter vantagens na exploração dos minérios. Enquanto os países ricos continuam enriquecendo às custas dos minérios do Congo, pessoas como Maguy são obrigadas a deixarem suas casas por conta da violência instaurada no país.

 

Para salvar sua família e a si mesma, a melhor decisão foi deixar da República Democrática do Congo. No país com o maior índice de estupro e violência de gênero do mundo, Maguy foi perseguida pelo fato de o marido ser militar. Sem poder arriscar a vida, teve que arriscar a sorte. Maguy contou com a ajuda de pessoas boas que encontrou no caminho para arcar com o valor da viagem de navio. “Deus sempre coloca alguém no seu caminho para ajudar quando você não tem nada, mas precisa sair.” Na guerra, é preciso estar sempre alerta e preparado para fugir, já que as situações acontecem quando menos se espera.

Sorridente, a congolesa sente saudade das pessoas, da cultura e da comida de seu país. Aqui, os brasileiros consomem carne demais. Lá, eles cozinham até a folha da mandioca, que ela só encontra de vez em quando no Brás, região central de São Paulo. Natural da capital Kinshasa, Maguy ainda espera voltar - apesar da guerra - e encontrar duas irmãs das quais não sabe o paradeiro.

Nem só as fronteiras continentais foram enfrentadas pela africana. A barreira invisível - só para os que não querem enxergar - do racismo no Brasil, ela encara de frente. Para ela, é simples, não entra em detalhes se algum curioso pergunta sobre sua origem. Basta falar que é africana. Com orgulho, Maguy diz: “Não sou negra não, sou preta mesmo”.

(Foto: Sofia Hermoso)

A guerra na República Democrática do Congo

     Entre 1996 e 2003, a República Democrática do Congo (RDC) viveu uma longa guerra civil decorrente do genocídio de Ruanda, país vizinho, ocorrido em 1994. O massacre étnico entre os hutus e tutsis, diferentes etnias africanas, afetou profundamente a história ruandesa e congolesa.

 

O estopim da guerra foi a queda e exílio do então presidente, Mobutu. A Aliança das Forças Democráticas pela Libertação do Congo-Zaire, foi o grupo responsável pelo início da revolta contra a ditadura corrupta do ex-presidente, que monopolizava a riqueza vinda da extração de minério e petróleo.

 

O líder da Aliança, Laurent Kabila, foi responsável por massacres contra ruandeses refugiados e em 1997, se autodeclarou o novo presidente. Assassinado em 2001 em um tiroteio no palácio presidencial, seu filho, Joseph Kabila, assumiu o poder. Apenas em 2003, com a mediação da ONU, é que um acordo foi feito e Kabila filho passou a governar o país com mais quatro vice-presidentes de diferentes vertentes políticas e sociais.

 

A instabilidade na República Democrática do Congo voltou a crescer após as eleições de 2011, em que o presidente continuou no poder, acusado de fraude. A violência e perseguição política contra grupos diferentes voltou a ser cenário recorrente na capital, Kinshasa. As mulheres são as mais vulneráveis, onde são registrados os maiores números de estupros e casos de violência doméstica do mundo.

 

Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), desde janeiro de 2017, mais de 1,9 milhão de pessoas se deslocaram no país. Em algumas partes da RDC, a ONU declarou o nível mais alto de emergência de uma crise humanitária, enquanto o presidente Kabila beneficia a comunidade internacional na extração das reservas minerais do país.