Projeto Via | Reportagem hipermídia produzida como Trabalho de Conclusão de Curso | Comunicação Social: Jornalismo pela UNESP | 2019

Nkechinyere Jonathan

     Era inverno quando a nigeriana Nkechinyere Jonathan, de 49 anos, chegou ao Brasil em 2014. A professora de inglês saiu às pressas de seu país, carregando apenas o passaporte e a roupa do corpo. Jonathan é mãe de 4 filhos e, para sobreviver, teve que deixar seus filhos na Nigéria enquanto não podia trazê-los ao Brasil. Cinco anos depois, a língua portuguesa ainda é um obstáculo: sem entender muito bem o idioma, se comunica com os brasileiros em inglês.

 

Professora, cristã, a nigeriana saiu de seu país por conta da perseguição do Boko Haram, grupo terrorista de origem jihadista. Ensinava em uma escola mista, de meninos e meninas, no norte da Nigéria. A região foi tomada pelo grupo terrorista, que passou a proibir a educação de meninas, sequestrou muitas delas e obrigou escolas a fecharem.

 

Lutando a favor da educação, Nkechinyere não desistiu e continuou dando aulas escondida em igrejas. Por agir contra as regras estabelecidas pelo Boko Haram, foi considerada inimiga do regime e passou a ser perseguida no país. Enquanto estava lá, cerca de 350 professores foram assassinados.

 

A decisão de vir para o Brasil foi tomada junto com a família. Seu tio, já morador do Brasil, falava sobre um país pacífico. Para quem vive as consequências de uma guerra declarada, a guerra silenciosa do Brasil, é paz. Deixar os filhos foi a parte mais difícil, “quando eu deixei meus filhos, não foi fácil. Eu chorei e chorei muito. Mas meu filho disse: Mãe, se recomponha.”

 

Sabendo que se permanecesse na Nigéria poderia ser encontrada e assassinada, Jonathan deixou o país para reunir a família mais tarde em um lugar seguro. Apesar de ter chegado sem nenhum bem material, trouxe na bagagem informações sobre os primeiros passos no Brasil. Já ciente do que a instituição poderia oferecer, foi direto à Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, onde recebeu roupas de frio, comida e foi encaminhada para um lugar em que poderia dormir por um tempo. A instituição forneceu orientações sobre como fazer a solicitação de refúgio para regularizar a estadia no país e como tirar a Carteira de Trabalho.

 

Com o pedido de refúgio já reconhecido, recebeu ajuda da Cáritas, do Conare e da embaixada brasileira para obter o visto de seus filhos e trazê-los para o país. Recentemente, um deles faleceu em uma cirurgia. A filha e os outros dois meninos estão terminando o ensino básico e Nkechinyere é a única que sustenta a casa.

 

No Brasil, ela é mais uma das muitas refugiadas que encontra a dificuldade na busca por um trabalho. Formada em Administração e em Relações Internacionais, não conseguiu trazer os diplomas para fazer a revalidação. Por ser um processo muito caro e burocrático, Nkechinyere, assim como tantos outros refugiados graduados que chegam ao país, teve que buscar emprego em áreas nas quais não é necessário ter altas qualificações.

 

O primeiro emprego foi na área de limpeza, em Cabreúva, São Paulo. Assim que chegou, foi avisada que o contrato teria que passar por algumas mudanças por ela ser estrangeira. As cláusulas que foram combinadas não foram cumpridas e a situação era precária: não havia material de segurança necessário, ela não recebia alimentação e a comunicação durante o trabalho era proibida. Permaneceu por um mês no local e decidiu sair por considerar as condições perigosas. O ambiente de trabalho era repleto de mosquitos, ela não tinha acesso ao inseticida e chegou a ficar doente por ter todo o corpo picado.

 

Hoje, em um cubículo na zona leste de São Paulo, Jonathan trabalha como cabeleireira, mas não tem condições de adquirir todo o material necessário para a profissão. Além disso, também dá algumas aulas particulares de inglês periodicamente, mas o valor que recebe por elas é bem pouco: quinze reais por hora. A luta atual é para que, além dela, os filhos consigam um emprego e seja possível arcar com os custos para o marido reencontrar a família.

 

Em busca de se manter a salvo mesmo em outro continente, a relação com outros nigerianos que vivem no Brasil é muito estreita. “As pessoas da Nigéria que encontro somente se comunicam comigo no nível do trabalho. Não falamos sobre outras coisas porque pode ser perigoso.”  Ainda existe o medo de ser encontrada e punida por acreditar no potencial libertador da educação.

 

Da guerra, não foram só lembranças que ficaram. Por ter passado quatro dias e quatro noites fugindo descalça no meio da floresta, Nkechinyere sofre com muitas dores no pé. A fisioterapia teve que ser interrompida pela falta de dinheiro. A cirurgia foi adiada por conta da recuperação: se ela fizer, o repouso necessário vai atrapalhar na assistência que dá aos seus filhos.

 

A professora acredita que um dia a guerra vai acabar, mas que não há como os povos se unirem novamente. “Eu quero que as pessoas saibam que tudo o que ouvimos falar sobre a Nigéria é real, todo o sofrimento está acontecendo na vida real. Sabe, ninguém um dia reza para ser um refugiado. Todos querem se estabelecer no conforto de estar em sua casa, em seu país. Todos amam o local onde nasceram, os prós e contras, as pessoas ao seu redor. As pessoas precisam parar de fazer as outras se sentirem inseguras em sua própria terra.”

A guerra na Nigéria

     A Nigéria é o país mais populoso da África, com cerca de 200 milhões de habitantes divididos majoritariamente entre muçulmanos e cristãos, mas conta também com outras minorias religiosas.

 

O país vive há seis anos uma guerra religiosa iniciada pelo Boko Haram, organização muçulmana extremista que teve origem na Nigéria por volta de 2001. O objetivo dessa organização é combater o legado e as influências ocidentais no país deixados pela colonização britânica e construir um Estado islâmico “puro”, baseada numa interpretação radical do Alcorão, livro sagrado muçulmano. Na língua local, hausa, Boko Haram significa “a educação ocidental é pecado”.

 

Segundo dados do ACNUR, a insurgência do Boko Haram é responsável pelo deslocamento de mais de 2,2 milhões de pessoas. Dentre elas, cerca de 203 mil são refugiados nigerianos espalhados pelo mundo.

 

Apesar de seguirem preceitos religiosos, os métodos utilizados pelo regime são violentos e incluem assassinatos, sequestros, estupros, apedrejamentos, recrutamento forçado de crianças para combates, entre outras situações. Em abril de 2014 o Boko Haram ganhou visibilidade mundial ao sequestrar mais de 270 meninas em uma escola no vilarejo de Chibok, afirmando que iriam tratá-las como escravas e casá-las. A partir daí, a violência extremista da organização aumentou.

 

A Nigéria também é um país rico em petróleo, majoritariamente localizado na região sul do país, onde vive a maioria da população cristã. Por ter interesse na exploração do petróleo, alguns países estão se aproveitando do conflito religioso e apoiando a guerra do lado muçulmano, para obter vantagens.

*A entrevistada não autorizou a divulgação de sua imagem.