Projeto Via | Reportagem hipermídia produzida como Trabalho de Conclusão de Curso | Comunicação Social: Jornalismo pela UNESP | 2019

Nisreen Zahloul

     Em nove anos de guerra civil, metade da população síria teve que deixar suas casas. Nisreen Zahloul, professora, 35 anos, é uma das mais de 5 milhões de pessoas que saíram do país em busca de refúgio. Hoje, ela, o marido e os cinco filhos moram em um apartamento no centro de São Paulo. Antes de chegar até aqui, a refugiada enfrentou situações desconcertantes.

 

Nisreen era casada com um engenheiro químico, com quem morava na cidade de Homs, a maior província da Síria, e teve três filhos: Jamal, Ahmad e Abud. A vida antes da guerra era tranquila e tudo era perto, o trabalho, a escola e a creche. Mas, quando o conflito se instaurou no país e o medo passou a ser constante, a vida virou do avesso: tudo era muito perigoso para as crianças. Os barulhos eram intensos, os bombardeios e as mortes eram muitas, e a dificuldade de levar alimentos e remédios para casa era grande.

 

Em busca de um lugar seguro, a família decidiu sair do país e Nisreen contou com a ajuda do cunhado para chegar até um campo de refugiados na Jordânia. Já no campo, a vida continuou a ser revirada e a família foi separada: homens tinham que ir para um lado e mulheres com crianças para outro. Nisreen passou um mês sem ter notícias do marido, até receber o número de telefone dele por um desconhecido.

(Foto: Sofia Hermoso)

A vida no campo era difícil e burocrática. As tendas eram feitas de tecido e havia lama por toda parte, o que dificultava que as crianças ficassem limpas por muito tempo. Para ter água, era necessário carregar baldes por um longo caminho e a dificuldade com relação aos banheiros também era grande. Quem morava no campo não podia trabalhar e utilizava apenas o que o governo fornecia. O processo para sair de lá, mesmo que por um dia, era burocrático e demorado.


Descontente com a situação da família no campo, o marido de Nisreen voltou sozinho para a Síria enquanto procurava um novo país para pedir refúgio. O plano era reunir a família novamente para sair do país quando tivessem um destino. Em mais uma - e talvez a maior - reviravolta na vida da mulher síria, seu marido faleceu em um bombardeio, três meses depois de deixar a Jordânia.

 

Sozinha e com 3 filhos, Nisreen casou com o cunhado, prática aceitável entre as mulheres muçulmanas na condição de viúvas. “Ele é tio das crianças, não é outro estranho e gosta deles como o pai, além de terem o mesmo sangue. Eu preferi ele do que outro. Se eu escolhesse outro, ele poderia gostar de mim, mas não das crianças”, explica a síria.

 

A decisão de vir para o Brasil partiu do novo marido de Nisreen, que não se acostumou a viver no campo de refugiados. Nesse tempo, ela engravidou de sua primeira menina: Marwa. Já com as passagens e documentos prontos, Marwa nasceu no dia em que embarcariam para o Brasil. A partida foi adiada até terem todos os documentos da menina, que conseguiram com a ajuda da ONG I Know My Rights (IKMR), eu conheço meus direitos, em português.

 

Na chegada, buscaram ajuda em uma mesquita para encontrarem moradia. A comunidade árabe muçulmana é muito forte, unida e estruturada no Brasil. A ajuda veio também da Cáritas Arquidiocesana, que além de orientar a família sobre a documentação, disponibilizou cestas básicas, fraldas e leite para as crianças.

Há três anos em terras brasileiras, a síria consegue se comunicar em português, mas ainda possui algumas dificuldades. Ela frequenta as aulas de português oferecidas gratuitamente pela mesquita e também pela Associação Compassiva, mas passa a maior parte do tempo conversando em árabe com a família. “A língua não me ajuda muito. Tem muitas palavras na minha mente mas não sei muitas expressões, não sei explicar muito.” As crianças aprenderam a língua portuguesa rápido e ajudam os pais quando necessário.

 

Os três filhos mais velhos estudam em uma escola islâmica brasileira com ajuda da mesquita, que arca com os custos das mensalidades. Com orgulho, Nisreen conta que os filhos são os primeiros da classe. Marwa e o pequeno Amir, nascido no Brasil em 2017, ainda estão na creche.

 

Além do idioma nativo ser falado em casa, a cultura árabe é presente também na decoração A cortina veio diretamente do Oriente Médio e o Alcorão fica exposto na sala. A porção de falafel com um molho especial e o chá não podem ficar de fora.

 

Com cinco filhos pequenos, a questão financeira preocupa. O marido trabalha como motorista de um aplicativo de transporte privado e Nisreen vende comidas árabes através de sua página no Instagram, “A rainha da comida árabe”. Tímida, ela sente saudades de ser professora, mas ama cozinhar e agradece o caminho que encontrou no Brasil. Aos poucos, a vida desvira do avesso que já foi.

(Foto: Sofia Hermoso)

A guerra na Síria

     A Guerra Civil da Síria, além de matar, ferir e deslocar milhões de pessoas, tem como uma de sua principais consequências a destruição da memória e identidade do povo sírio. O desaparecimento da cultura é recorrente na história das guerras, seja por consequência dos conflitos armados e bombardeios, ou por intenção direta de extinguir os traços culturais do outro.

No caso da Síria, um fator agravante é que, como berço da humanidade, a história mundial é atacada ao mesmo tempo que a local. Em nove anos de guerra civil, diversos patrimônios mundiais foram danificados. Alguns deles, constam na lista da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), como patrimônios mundiais ameaçados de extinção.